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- A Melhor Hora do Meu Dia
O café da manhã é uma boa medida das fases de minha vida. Minha primeira recordação dessa refeição é sobre os ovos quentes e a “geléia” de mocotó Colombo servidos a meu pai, em minha tenra infância, enquanto ainda não sentíamos os abalos do terremoto por vir. Photo: K2PhotoStudio, via Shutterstock, Stock Foto ID: 380603521 Após o cataclisma que abalou os alicerces de minha família, o café da manhã e outros símbolos da boa vida familiar se foram e somente tive contato consistente com essa refeição alguns anos mais tarde. Infelizmente, então, essa refeição, de maneira geral, resumiu-se a um café com leite, pré-misturado e docíssimo e a um pão de segunda com margarina, na escola militar. Nunca me acostumei ao sabor do leite, que sempre associei ao líquido doce e morno das mamadeiras. Assim, meus anos de vida militar resumiram-se, no quesito café da manhã, na melhor das hipóteses, à escolha entre tal mistura ou um café preto da pior qualidade. Essa situação somente seria alterada, muitos anos depois, em um Kibutz e em uma vila dos Alpes. Em Israel, tive contato com um pequeno-almoço diferente, repleto de iogurtes, queijos frescos, azeitonas, tomates, pepinos, pão pita e muitas frutas. Na Áustria, descobri uma rica variedade de pães, frios, manteiga fresca e café preto bem feito. A partir de então, fiz as pazes com essa refeição e redescobri seu valor social: um momento de alimentação saudável ou saborosa e de confraternização com as pessoas próximas, de nosso convívio diário. É essa a definição que minha esposa dá ao nosso café da manhã: a melhor hora de nosso dia. Entre queijos frescos, torradas, bom café preto, frutas e geleias, tudo sem exagero, confabulamos sobre a vida, enquanto ouvimos a CBN, a BBC, a Radio France, a CNN, ou o Globo Rural, conforme o dia da semana e nosso humor. Daí surgem conversas e ideias interessantes, sobre nós e as pessoas, sobre o país, o mundo e o estado das coisas. Muitas ideias doidas, associações tresloucadas e reminiscências afloram, a partir das quais nos perdemos em deliciosas conversas. Foi da comparação entre o tom de cobertura dos eventos jornalísticos, pelos apresentadores da CBN com os da BBC e da Radio France, que saltamos para questões sobre nosso engajamento, no Brasil, em discussões de caráter coletivo — ou que ao menos deveriam o sê-lo. Enquanto nossos apresentadores — quem sabe influenciados pelo estilo de jornalismo estadunidense ou, em certa medida, por legítima afinidade com aquela cultura — apresentam o noticiário em um formato de quase entretenimento e de forma engajada; os britânicos e franceses, ao menos dessas duas rádios, o fazem de forma destacada e formal, com enfoque especialmente nos eventos. Enquanto no primeiro caso, conta-se quase uma estória; no segundo, relata-se um ocorrido. Verdade que talvez seja relevante considerar-se em que medida a vida política do Brasil, transformada em quase uma novela, não contribuiu para esse estilo atual de nossos apresentadores de televisão. Há que se comparar o William Bonner e a Fátima Bernardes dos anos 1990 aos dos dias atuais — ela inclusive optou incondicionalmente pelo entretenimento. O fato é que hoje, parecemos mais preocupados com os próximos capítulos de uma trama, do que sobre como poderíamos de fato sair dessa trama. O salto agora será grande e exigirá bondade e esforço do leitor, pois pergunto em que medida nossa formação,ou não formação, como nação pode contribuir para esse fenômeno? Tomo a liberdade de ignorar a aparente ruína da democracia e da política que tem sido verificada em outras paragens, em maior ou menor grau. Nos EUA, há Trump versus Biden, na Holanda, França, Reino Unido, Hungria e Polônia — limitando-nos a exemplos “ocidentais” — tons de extrema-direita vem ameaçando tudo que associávamos à estabilidade da relação entre democracia e alguma versão de capitalismo. Meu argumento é que se fixarmos o foco da discussão sobre o estilo dramático-jornalístico de nosso tempo, no Brasil, à questão da falência da política e da democracia, corremos o risco de contemplar sintomas comuns aos pacientes, mas cujos fatores que influenciam o tema provavelmente serão diversos e, por vezes, particulares a cada caso. O ponto que desejo fazer é sobre uma característica local, já bem discutida na academia: a ausência de um sentido coletivo na sociedade brasileira. Em “Os Bestializados”, José Murilo de Carvalho analisou a questão da cidadania, das agendas envolvidas em crises do Rio de Janeiro, nos primórdios da República. Em certa medida, sua análise expõe a falta de um cimento social em torno de um bem comum, de uma causa amplamente coletiva, precisamente um dos pressupostos do Estado moderno, particularmente construído sobre teses contratualistas. Partamos do argumento batido de que o que nos distinguiria dos estadunidenses seria nosso tipo de colonização. Enquanto por lá teria ocorrido uma ocupação territorial por novos grupos sociais, com interesses de construção de uma “nova” sociedade; aqui teria corrido uma ocupação movida por interesses exploratórios, ou seja, o interesse primário não seria a construção de uma comunidade, mas o uso imediato dos recursos, ainda que por intermédio do esforço alheio. Enquanto em outras paragens, houve uma transposição de grupos sociais em números consistentes, que possibilitassem uma igual transposição de práticas e expectativas sociais, entre elas de um bem comum e sua busca; aqui ocorreu uma ocupação por indivíduos com interesses manifestamente individuais — importante notar a escolha do termo “individual”, pois se entende que um interesse possa ser privado sem que se renuncie a considerações coletivas (a ideia de função social da propriedade não é uma invenção da Constituição Federal de 1988; ela já estaria presente em considerações de pensadores como Adam Smith e John Locke, queríamos ou não reconhecer isso). Contudo, a diferença entre transposição e ocupação pode ser entendida como um fator relevante na forma como o Estado e a nação são construídos. Enquanto no caso estadunidense é possível perceber como os termos construção do Estado (“state building”) e construção da nação (“nation building”) tendem facilmente a confundir-se; no caso Europeu (de nossos colonizadores, gostemos ou não disso), a existência da nação muitas vezes é o motor gerador da construção do Estado. Por outro lado, em Pindorama, a coisa mais próxima de nação que aqui chegou, até o século XIX, foram os africanos, de quem herdamos trações e tradições maravilhosas — apesar de todo nosso racismo —, mas que para cá vieram desterrados e sem qualquer ideia de identidade, a não ser com relação a sua origem comum, no mesmo continente, e aos rótulos nefastos que os não negros lhes atribuíram. Nesse cenário, a única fonte de cimento social que seria razoável esperar seria a solidariedade humana, de fundo religioso ou de qualquer outra fonte cultural, menos a ideia do bem comum fundamental das teorias contratualistas e do Estado moderno construído, essencialmente, sob os alicerces de uma nação ou simultaneamente a ela. Nesse sentido é que a obra de Murilo de Carvalho ganha importância, pois apresenta uma argumentação esmiuçando a construção de um Estado sem a consolidação prévia, tampouco, concomitante da nação. Sejamos, então, sinceros, quais os movimentos que apontam no sentido de uma nação, no Brasil: Getúlio e seu Estado Novo, pontualmente com Villa-Lobos, Ari Barbosa, Domingos da Guia, etc.? Os Modernistas de 22 e a pujança de uma São Paulo, de imigrantes ou quatrocentona, em ascensão? Uma capital federal com uma natureza abençoada e uma princesinha do mar que atraiu e atrai tanta atenção do exterior e alguma inveja de locais? O futebol, a seleção canarinho e seu passado de glórias, que parece nunca mais voltará? O ufanismo do regime militar, por si só evidência da herança doutrinária e ditatorial dos “jovens turcos” do exército brasileiro e, não por coincidência, lembrando o Estado getulista? A controversa TV Globo? A ascensão do neopentecostalismo, sua força política e viés de dissenso social? Não, nada disso teve sucesso em moldar uma nação. Pior, o próprio andar da carruagem, neste século XXI, de possibilidades infinitas imprevisíveis, parece nos afastar cada vez mais de nossa dimensão humana, especialmente por conta da forma como novas tecnologias vem influenciando o convívio social e comportamentos coletivo e individual. Parece que o Brasil parece se afastar, cada vez mais, de qualquer cimento de ordem social ou humanística. Seja da pretensão a um bem comum ou à solidariedade. A empatia parece pertencer ao passado. Assim, não podemos nos surpreender com noticiários tornados entretenimentos. Não há qualquer vontade individual ou coletiva, com força política, mas apenas a curiosidade de acompanhar o desenrolar de assassinatos, feminicídios, tramas político-criminais ou desventuras de influenciadores digitais, em convívios bizarros, em casas monitoradas. Nada mais semelhante à maratona de um “Breaking Bad”, “House of Cards”, ou “Succession”. Sucessos de público que todo editor de telejornal inveja e tão verídicos quanto os demais “docu-filmes” que pululam os serviços de streaming. Mas com licença, para não surtar, felizmente chegou a hora: vou tomar meu café da manhã. Saravá!
- Amsterdam Summer Festival’s Foodscape
A visit to Amsterdam's "Roots Festival, 2018": storytelling and images of a multicultural foodscape, and of a sizzling melting pot of postcolonial identities [Roots Festival: https://www.amsterdamroots.nl/ ] [Source: https://www.amsterdamroots.nl/gallery/festival-2018/ ] Departure and Arrival [All photos from here on are by the author] It was a course assignment on a Sunday and I had mix feelings about it. While part of me wanted to stay in bed, the other part was anxious to meet my colleagues outside the school setting. Of course, there was also the curiosity to go to a multicultural event in a world-city like Amsterdam. After all, it was a field trip to Amsterdam Roots Festival and part of a summer school on ethnography and storytelling at VU (Vrije Universeit Amsterdam). The festival is an annual traditional local event about diversity and grassroots with several stalls, presentations, and workshops of multiple forms of artistic expression and craftwork, from music, dance, circus, and storytelling to food. I presumed the festival’s bazaar would be particularly colourful and exciting, giving me the chance to observe, interact, and take photos from people selling handcrafts and ethnic food, while also tasting it, in a multidimensional and multicultural foodscape – which is basically the landscape of the political, economic, historical, social, and cultural context in which practices and values related to food and eating are somehow established and occur in a given space and time [1]. Anyway, it was a beautiful sunny day perfect to go to a park and enjoy it with friends, to listen to different music styles and to taste foods from different cuisines – not to mention, a great opportunity to put into practice what we had been learning in our anthropology course. All that in an event with a distinctive neighbourhood-like flair, possible only in cities like Amsterdam, yet away from the hordes of tourists and foreign kids “smoking their brains off” in the coffee shops in the central part of the city – I am not being judgemental, do not take me wrong, I usually pay a visit to De Tweede Kamer for old times’ sake whenever I am in Amsterdam. That day, our starting point was Amstelstation, by “the piano” as Younes, our course co-ordinator, had instructed us, as simple as that. Younes alone is a unique character. He is a well-known Iranian anthropologist, a bit mysterious given is life history, obviously, who did war zone ethnography, more precisely among the Daesh in Syria, using storytelling and visual elements to counterbalance the hardness of traditional academic writing. There stood the piano, honourably right in the middle of a major train and tube station, taken by a young fellow. Despite some temptation, I did not dare to touch it. Despite coming from a musical family, which makes music very central to my existence, I play no instruments. I sat at it just to register the beginning of our mission-adventure. On the other hand, Vittoria, a multicultural and talented Aussie, was the one who honoured us with a few beautiful tunes. That done, are we all right? Are we all here? So, off we go! With the help of Google Maps, we set off on our exploration. On the way, my pace had eventually accelerated by the excitement of the journey I had just embarked on – what the heck, I cannot deny my “Brazilianess”, we are full of emotion, yes, sometimes too much. Some minutes later, we came by a lost poster of the festival stuck on a wall near Amsterdam’s Oosterpark, our final destination. We were near... I felt compelled to register it, perhaps in the hope of marking my “ethnographic footsteps”. What? Oh, yes, you may say that it is practically impossible to get lost with Google Maps, but I had managed it the day before – after one of those visits to De Tweede Kamer, of course. After confirming that we were in the right direction, we made more headway for a few blocks and “voilà”! There we were: the Oosterpark, entering the festival’s grounds in a single file as if we were true explorers delving into an unknown Jules-Verne-like adventure to the centre of the Earth. As we did it, we saw the first lines of stalls being set to sell food and handcraft. But..., yes, I know..., sure it seemed rather empty and too quiet early in the morning, nonetheless, the first-hours fresh air cutting through the park’s trees’ shades made me relax... Still, the presence of locals taking their Sunday stroll with their dogs announced and reinforced the park’s neighbourhood atmosphere and the Festival’s grassroot character, which I suspected could collaborate to some authenticity of the experience, despite all globalization involved in it. Such peacefulness was also a perfect setting for Henry to explore his ethnographer vein as he waked by the stalls and calmly talked to the people setting the stands. Inspired by him, I turned to my ethnographic mission, trying to mimic his style when interacting with my “observees” [2] to obtain the so-often-sought empirical material as spontaneous as possible and essential to any ethnographer. I started to toil, working on spoken and visual gems (such as a Dutch-Creole "wurst") in search for data, taking my notes and photos and continuously seeking spontaneous conversations. As an experienced chef, seasoned traveller and a not-so rookie researcher, I felt the bazaar could give me plenty of material about Amsterdam's foodscapes. Of course, I kept in mind that my research's "patrons" (the stalls' people) had to improvise to cater for a large avid crowd and, so, my expectations about the quality or authenticity of their cuisines should be duly adjusted. Sure, this did not impair the cultural diversity of the material available. On the contrary, adjustments may result from negotiations among various multicultural identities in postcolonial settings, without compromising the richness of their cultural roots [3]. Indeed, at a Surinamese food stall, we tasted a delicious and refreshing non-alcoholic ginger beer. As the ginger touched my palate, a sparkling-like sensation reached every corner of my mouth, reminding me of the traditional Chinese hot-and-cold duality and of how West and East have met since the Columbian Exchange. Brave new world? Dutch, Creole, Chinese, Surinamese, such an array of postcolonial flavours, aromas, colours and diverse impressions... Venezuelan flavours... Türkiye's (instead of Turkey to respect a legitimate wish) ever-present falafel and kebabs... Indian, Indonesian (it seems Dutch buccaneers and traders have been everywhere indeed)... The ever-delicious and equally always-present Japanese cuisine – which, depending on your perspective, unfortunately, due to the sushi craze and its attached fishing industry, may have been helping to decimate the tuna population from the seas [4]... Even local creative interpretations of Southern US cuisine (Florida menu?) confirming how a culinary identity can be adapted when inserted in a new foodscape...... And surprisingly, there were even some stalls offering Dutch food and delicacies, reminding that local traditions may live together with new influences... Last, given the event's general tone, neither should I forget to mention Amnesty International’s smiling team. It becomes difficult these days to separate diversity in Europe from issues related to human rights, refugees, and the degree and quality of human beings’ capacity to live together in truly diverse societies. So, they were there, collecting data and spreading their always important message. Food and eating are central to our survival [5], but they also shape a socially and historically constructed cultural phenomenon [6]. Therefore, food, eating and the foodscape notion share a multidisciplinary nature [7 and 8]. Madame Coco, born in the Netherlands from Moroccan parents and speaking five languages; Jair, a Dutch born from Ghana parents, named after a Brazilian footballer, and starting his online company of organic skincare products…; Foto 22 ... the Senegalese looking after the stall selling colourful straw bags…; Foto 23 ... the Ecuadorian lady selling the always colourful Andean woollen work; and Mexico’s stand displaying the eternal Frida Kahlo may all help see the greater and complex context of Amsterdam’s multidisciplinary foodscapes. Foto 24 Yet, as I progressed along the lines of stalls, so varied colours, nice food smells and sounds had a “déjà vu” effect on me. So many impressions kept pressing me back to my own life story – as to a Mapusa’s market, in Goa, in India, in the distant year of 1990, when an immense array of impressions from strong colours, people’s hubbub, different sounds and music, and multiple scents from foods and spices got me literally buzzed. Foto 25, 26, 27 e 28 Then and at the Oosterpark, the cooking of so diverse cuisines, spices and the smoke from charcoaled chicken; the voices in so many different languages from the increasing number of visitors; and the mixed sounds from the first accords of the bands on the stages in the park’s central lawn... It all dazzled me and made it difficult to see how to carry on with my ethnographic mission. I did not know what to do, how to continue… Foto 29 Impressions, too many impressions, which, all of a sudden, kept transporting me not only to India, but to Serrita, in the heart of Brazil’s Northeast, in 1981, to another festival, that time a religious one for local cowboys, but also with the same array of multiple impressions from colours, sounds, smells and tastes. Foto 30 Then, as many times before, I wondered whether ethnography can teach us more about the other or about ourselves. Indeed, by the time I reached the last stall, my head was in total confusion, between the present and past experience. Foto 31







