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  • Bife com fritas e outras estórias

    Pra minha mãe e minha dindinha Foi em uma manhã sempre viva, uma lembrança nunca perdida, quiçá uma das mais antigas dentre muitas outras, que permanecem refugiadas, submersas em algum canto de meu inconsciente, para eventualmente reemergirem por provocação ou a seu aparente bel-prazer. Um momento marcado por uma refeição, por pessoas e lugares. Uma manhã cheia de sabores, cores, perfumes e texturas que ainda me dão água na boca, mas que formam bem mais que meras memórias gustativas. Dão luz a outros estímulos, desejos, impulsos, registros e afetos que, sim, temperam minha vida e experiências, mas com desdobramentos em várias dimensões. Seja o aroma do alho dourando na frigideira à espera de legumes picados, do feijão na panela de ferro, do bolo saindo do forno ou de algo grelhando lentamente sobre o carvão, são impressões registradas para além de sensações físicas percebidas por minúsculos sensores em nossas línguas, de esquinas em nossas bocas ou por aromas que alcançam nossas narinas. São múltiplos estímulos, maravilhas que despertam um complexo sistema sensorial. São experiências de naturezas múltiplas que se alojam em nosso inconsciente e que, vez por outra, nos fazem retroceder a momentos, lugares, pessoas e emoções passadas. São fragmentos de lembranças de sabores, acontecimentos, sentimentos e gentes queridas que se combinam como ingredientes frescos, reaproveitados ou reinventados, salteados com vigor, apurados sob fogo lento, assados sob calor intenso ou defumados por brasas, que são servidos em um prato de memórias, em estórias, como um mosaico fotográfico ou flashes de nossa existência, ou ao menos como dela nos recordamos. A manhã que tenho em mente e tudo a ela associado me acompanham sob a forma de representações e interpretações servidas de um caldeirão de memórias gustativas, mas inseparáveis de lugares, de pessoas, de relações e de um tempo queridos, com ricos desdobramentos. O que vivi funde-se em uma cena, em uma fotografia ou em um antigo rolo de filme, sem necessariamente uma sequência clara, cujo foco se desfaz em bordas turvas sob o efeito de um filtro difusor ou de um desgaste do celuloide pelo tempo. A “síndrome do vinagre”, que pelo odor de um processo químico associa-se a um ingrediente de cozinha. Talvez mais uma relação culinária, com o fogão ou com o fogo que marcou nosso percurso e sobrevivência como espécie, como sugere Richard Wrangham. A exemplo da História, nosso olhar para o passado é frequentemente impreciso, carrega vieses, implica agendas específicas. No mesmo sentido, imagens do passado podem decorrer de iniciativas alheias a nossa consciência ou razão, daquilo que melhor convém a um sem-número de elementos que para ela contribuem. Nesse processo, sujeito e objeto podem se confundir. Naquela manhã, sou sujeito e objeto de minhas próprias lembranças. Sou ator, diretor, fotógrafo, roteirista e produtor de uma estória que beira ou não passa de uma ilusão. Chega da mesmice do real. Deixem-me ousar criar um passado. Apesar de uma forte inclinação à solitude e a mergulhar em um mundo interior de representações, fantasias ou sonhos próprios, vivo e me alimento do outro, carregando comigo insaciáveis curiosidade e urgência de sociabilidade – que não sei se inatas ou adquiridas –, mas que eventualmente me resgatam de um mundo interno intenso e fantástico. Momentos de vivência externa e de reflexão interior se revezam ao longo de meus dias. Interagir com outros implica, para mim, necessariamente, a necessidade de equivalente reclusão posterior. Na mesma medida em que amo o outro, preciso me recolher a espaços próprios e exclusivos. Como no livro de Bernard Shaw, poderia me definir como um “socialista insociável”. Esse aparente paradoxo entre o conforto de um eremitério mental, interior, e uma persistente ou inevitável impossibilidade de desconexão do meio e do outro, certamente me levou e me leva até hoje a sentir o mundo de uma forma ao mesmo tempo singular e rica, mas vez por outra dolorosa. Muito cedo, minha alma já se pôs em alerta, rendendo-se a inevitáveis desafios e desconfortos. Entre eles, habituou-se à coexistência de um mundo interior fantástico próprio com a entrega material e espiritual à estrada, ao outro, à descoberta de novos lugares, de gentes e de experiências. Para mim, tornou-se comum a escolha entre o desejo aparentemente nato de solitude e a submissão a uma sociabilidade inerente ao ser, ou o anseio igualmente primevo de encontrar pessoas, fazer diferentes coisas, não me satisfazendo com um único caminho, mas com vários rumos, lugares e destinos. Ainda sentado à minha carteira, em uma escola militar, com uma face imberbe, durante um período paradoxalmente solitário em um ambiente essencialmente coletivo, olhava magnetizado para meu professor, um velho coronel, que dava vida a suas aulas de História, em que cavaleiros se tornavam Quixotes e as distâncias que somavam milhas e séculos entre Cabral e Armstrong, eram reduzidas, por suas estórias ou meus devaneios, em lapsos irrelevantes face a possibilidades de associá-los. Desde então, percorri e percorro um mundo imenso sem fronteiras para minha curiosidade, sem limites a meu insaciável desejo de aventuras e à minha inquietude inata, mas sempre intercalando interações intensas com isolamento e reflexão interna. É dessa combinação entre as experiências com o outro e com meu mundo interior fantástico que nasce essa manhã, quem sabe imaginada, distorcida ou real, mas que de qualquer forma segue viva como lembrança e que agora, aqui, lhes apresento como estória. Na verdade, qualquer que seja sua natureza, imaginada, distorcida ou real, sinto-me impelido a compartilhá-la, pois todas as minhas manhãs são impregnadas de forças vitais. Se minha alma parte boêmia um dia se alimentou das meias-luzes e penumbras da noite e de seus potenciais mistérios, a manhã sempre renovou uma herdada inclinação “pró-vida”, quando raios de sol, ainda que dissipados por neblina ou obstruídos parcialmente por nuvens, iluminam um caminho que me leva adiante, vencendo as idiossincrasias da existência humana, que nunca deixa de ser sofrida, mas que para mim, talvez um incorrigível romântico, nunca deixa de valer a pena. Que venham os feixes de luz da manhã. Experiências de vida são forjadas ou influenciadas por outras que as precedem, ou por desejos e pulsões de vida e morte, por complexas relações entre prazer e desconforto, inatos, adquiridos ou transformados ao longo do tempo. Essa é a máxima que me faz acordar, levantar e caminhar: enfrentar, entender e solucionar ou contornar ameaças, desafios e desconforto, para em seguida experimentar precários prazeres, no esforço sem fim de ver algum sentido em uma ingênua existência, talvez sem sentido, ou com vários sentidos sujeitos a ajustes e transformações. Dessarte que essa manhã, como quaisquer de minhas memórias, pode ter acontecido de maneira totalmente diferente do que lhes relato; outros que a viveram, ou dela ouviram falar, poderiam contá-la de outras formas; mas essa é minha lembrança, parte de minhas estórias. Quem conta um conto aumenta um ponto e, inevitavelmente, estórias podem se tornar pontos de uma história, da mesma forma como essa estória pode ser vista como parte de minha história. Parentes e amigos sempre elogiaram minha memória, a ponto de ter acreditado, um dia, na ilusão de que seria capaz de lembrar-me de tudo que viesse a viver ou testemunhar ao longo de minhas andanças. Contudo, cada vez mais, percebo que estou esquecendo algumas coisas, antigas ou recentes, e me convencendo de que tudo que vivemos, uma experiência ou um momento, só o fazemos uma única vez. De fato, o que segue conosco é frequentemente apenas uma representação nossa do que imaginamos ter acontecido. Memórias se esquivam de nós no mar indecifrável de nossa mente, de nosso inconsciente, ou retornam como novas estórias compostas por resquícios do que lhe deram origem e adereços que, consciente ou inconscientemente, lhe adicionamos, influenciados por tudo mais que vivemos. Talvez como o diria o velho sábio vienense, o que registramos em nossa memória e o que reconstruímos dificilmente será fiel a qualquer que seja o fato inicial, ou sua origem, real ou imaginada. Mais ainda, Tan Twan Eng, o romancista malasiano, escreveu que podemos ser até donos de nosso presente ou futuro, mas nosso passado raramente a nós pertence. Este, provavelmente, será construído conforme as lembranças que outros têm de nós e de nosso passado, ou conforme sejam levados a falar de nós, decidirem falar de nós ou incluir-nos em suas próprias estórias. Longe de flertar com uma relatividade vulgar ou atribuir qualquer valor mítico à verdade, reconheçamos apenas a dificuldade de encontrar uma certeza universal, qualquer que ela pudesse vir a ser, e satisfaçamo-nos com a aventura das possibilidades. De qualquer forma, assumo o descompromisso com o fato, pois não tenho qualquer pretensão de escrever memórias, mas sim de contar estórias. Seria injusto negar-lhes o benefício da ficção. Melhor ainda é libertá-las do império do baseado-em-uma-história-real que me parece prevalecer entre nós, especial e paradoxalmente nesses tempos de verdades, mentiras e versões fluidas – se me permitem colocá-las assim. Deixo claro, assim, meu desejo de fugir à tentação de divagar sobre o real, a ficção ou as possíveis distâncias entre os dois ou quão tênues sejam suas diferenças – uma discussão sem dúvida densa. O fato é que tenho sido arrebatado por um impulso de colocar “no papel”, ou seja, de compartilhar de forma livre partes de meu mundo, com a única preocupação, neste caso, de contar uma cena, de minha infância, que povoa minhas lembranças, reemerge e me faz pensar frequentemente em minha mãe e uma de minhas primas, duas pessoas marcantes em minha vida. Revisito, então, a copa-cozinha de uma casa e me vejo à sua mesa de refeições, na companhia dessas mulheres, mas, diante da tela do meu computador, sou tragado pelo refluxo de muitas outras lembranças e ponho-me conversando com meu passado, buscando saciar um desejo de compartilhar impressões. Saio da casa e mergulho em um caleidoscópio formado por algumas peças de minha vida. Na verdade, impressões podem ser tão intensas que causem alterações de consciência semelhantes a outras drogas, como quando fui tomado de assalto por tórridas cores, cheiros, sons, sabores, temperaturas e toques ao caminhar pelo mercado de Mapusa, no norte de Goa, na Índia, em outra manhã, há trinta e seis anos. As impressões provocadas por lembranças associadas à tal manhã na copa de nossa casa são ricas, intensas e igualmente tórridas como aquelas de Mapusa e merecem ser compartilhadas. Seguem-se, então, linhas que buscam compartilhar impressões e alterações em minha consciência. Decidi contá-las ainda que como parte de criações autônomas, descompromissadas e sob os riscos de lapsos e erros linguísticos e factuais; sem muita preocupação com críticas ou escrutínios de verificações históricas ou de diferentes perspectivas de pessoas que de alguma forma, em algum momento, tiveram contato com ela ou seus personagens. Essas linhas não são mais que uma tentativa de externar impressões, experiências, sentimentos, pensamentos e partes de mim, talvez, de interesse para alguns de vocês, mas para cuja leitura sugiro um olhar multifacetado, fragmentado e policromático. Essa estória começa com um almoço, quase matinal, pois se passa nas últimas horas de uma manhã que nunca terminou, permanecendo viva como memória recorrente por muitas razões. Comigo, sentadas à mesa da copa, na casa de meus primeiros anos de vida, estão minha saudosa mãe, eterna amiga de quem herdei o gosto pela vida, e minha prima-dindinha. A casa ficava na Rua Araxá, uma bela rua larga, no Grajaú, ladeada por flamboyants e tamarineiras, com outras casas ajardinadas, típicas então, nos anos 1960, daquele bairro do subúrbio planejado e construído no início do século XX, com alguns poucos prédios de até dois ou três andares, nos subúrbios da zona norte do Rio de Janeiro. Com essa manhã sem fim e esse almoço seguem sabores que dão água na boca e cores que as tingem com tons de desejo, ternura, conforto, carinho e segurança despertados ou emprestados pelo contexto em que se deram, em especial pela presença daquelas duas mulheres, minha mãe e minha prima. Uma manhã e um almoço singelos com aromas e fragrâncias próprios, vindos dos ingredientes dos pratos, dos métodos de cozimento empregados e dos perfumes daquelas mulheres, naturais ou emprestados, quem sabe por Dior. Momento e comida que têm texturas percebidas, guardadas e inspiradoras de associações gustativas e outras mais sensações, como desejo, ternura, conforto, carinho e segurança. Essas memórias, suas imagens e as emoções a elas associadas perduram em minhas representações e tornam-se a matéria prima dessa estória. São recuperadas, construídas e contadas a partir de minha paixão por comida e seu ritual, mas com desdobramentos em função do que acompanhou aquela refeição – as pessoas presentes à mesa, o lugar, o contexto e uma miríade de elementos de diversas naturezas, especialmente dos bons sentimentos que aquelas duas mulheres sempre despertarão em mim. Na copa, à mesa de refeições de fórmica madeirada, que, assim como suas cadeiras, tinha os pés palitos típicos dos anos 1950 e 1960, estávamos minha mãe, minha prima e eu. Em frente a esta, sobre a mesa, um belo prato de bife com arroz branquinho e fumegante, batatas fritas e ovo estalado – eu sei, dois carboidratos e duas proteínas, combinação não exata e nutricionalmente indicada, mas muito popular no Brasil e em Portugal, afinal estávamos no Rio de Janeiro, talvez a cidade mais portuguesa ao sul do equador. Ele era oferecido com carinho quase maternal por minha mãe, madrinha de minha prima, em uma copa de paredes ladrilhadas, iluminada por amplas e ventiladas janelas. Suas paredes eram compostas por um mosaico simples e geométrico de pequenas pastilhas sextavadas. Pastilhas brancas, do chão até a altura de cerca de um metro e setenta e cinco centímetros, a partir de então seguidas por uma faixa de pastilhas pretas, também sextavadas, de aproximadamente um palmo, em paralelo ao solo, ao longo das paredes, e em seguida completado por uma última faixa de pastilhas brancas até uns dois metros de altura, quando as pastilhas terminavam e as paredes remanescentes eram pintadas em azul muito claro até o teto. Um design comum em casas brasileiras, a partir das décadas de 1940 e 1950, ainda muito presente na década de 1960, que permaneceu em minha memória como a quintessência de uma fresca, acolhedora e alegre casa de subúrbio. Àquela mesa, como expectadores, eu e minha mãe, que conversava com minha prima, que se lançava ao prato de seu delicioso almoço. Do outro lado da mesa, à sua frente, eu, um garoto de cinco anos, com meus eternos olhos castanhos grandes, como bolas de gude, esbugalhados – como as pessoas costumavam descrevê-los –, a saborear e cobiçar o prato alheio com seus olhos de bolão (a bola matadora). Sim, eu, que além de ser glutão desde cedo, também nutria uma paixão, talvez, espontânea por minha prima, pois ela sempre me pareceu uma princesa; ou adquirida pela atenção que ela me dispensava, a compensar a exclusividade, a meus olhos enciumados, creio, que minha irmã atraía, uma bonequinha linda, viva e sapeca de cabelos levemente ruivinhos e cacheados. De qualquer forma, minha prima sempre foi uma mulher generosa, com um coração naturalmente maternal, dedicando carinho e atenção a qualquer criança, não à toa, tornando-se, especialmente em minha infância, minha madrinha de coração e a “dindinha” de muitas outras crianças da família. De qualquer forma, aos vinte anos, ela era, para mim, linda, como as moças dos anúncios da TV, das praias de Ipanema (o bairro da infância de meu pai e de sua família) e de Copacabana (a eterna princesinha), ou do Grajaú Tênis Clube, onde costumava assistir minha mãe treinar e jogar tênis – cujas quadras frequentei ainda em gestação, no útero de minha mãe, atleta cujo talento veio do puro esforço em aperfeiçoar seu jogo, em partidas, treinos ou inesgotáveis horas de paredão. Minha prima tinha cabelos negros lisos, frequentemente presos em um rabo de cavalo, e sua tez era branca, bem clara e lisa. Seu rosto era arredondado, com lábios bem delineados, olhos negros amendoados, maçãs do rosto cheias de vida e nariz miúdo proporcional ao rosto e à sua estatura mignon. Era uma típica bela jovem de origem portuguesa. Naquele dia, vestia uma calça estilo Saint Tropez, de modelagem reta, colada ao corpo e de barra alta, deixando os pés parcialmente à mostra, acomodados em uma sapatilha, e uma blusinha sem manga igualmente justa ao corpo. Uma verdadeira carioca moderna, de um subúrbio de classe média, dos anos 1960. Não me lembro de onde ela vinha ou para onde ia naquele dia, se da UEG, quando a UERJ ainda era da Guanabara, onde estudava engenharia química, ou para o BNH, o banco financiador do projeto habitacional do milagre econômico, onde trabalhava. Minha prima-madrinha fora acostumada com os cuidados de minha mãe. Minha tia, sua mãe, uma mulher forte, foi mãe solteira, secretária executiva profissional, sempre trabalhou em tempo integral. Minha mãe, casada e até então vivendo uma vida muito confortável, funcionária pública com o luxo de trabalhar apenas meio expediente, marido ainda bom provedor e amigo, sempre ajudou a irmã com a filha, inclusive recebendo-a para almoçar entre a faculdade e o trabalho. Além de linda, minha prima era muito inteligente, preferindo sempre se dedicar aos estudos, ao trabalho, à leitura e, muito divertida, a jogos inteligentes, como belíssimos quebra cabeças, jogos da memória e, anos depois, jogos da Grow, que sempre compartilhou com os primos mais novos. Era independente e à frente de seu tempo, tornando-se anos depois uma grande mãe “solo”, como sua mãe, adotando uma criança, chefe de família e profissional competente. Logo depois da copa, quase nos fundos da casa, era a cozinha, onde minha mãe e sua cozinheira, em cooperação, prepararam aquele prato, para minha prima-madrinha, de bife com arroz, batatas fritas e ovo estalado. Como sempre, tudo me parecia sedutoramente delicioso. Bife com batatas fritas para uma criança!? Eles eram suculentos, dourados, fumegantes, perfumados, combinando com a gema mole do ovo, em seu amarelo intenso, a cavalo, se rompendo e unindo ao suco da carne lindamente corada e crocante por fora, macia e levemente vermelha por dentro, resultando em um molho rico e aveludado, onde minha prima afogava suas batatinhas igualmente coradas e o arroz branquinho refogado no alho. Era pura simplicidade e qualidade, pois o prato fora preparado naquela mesma manhã e os ingredientes eram frescos, saídos da quitanda, do açougue e da granja do bairro. Sim, os ovos vinham da granja do bairro junto com o canto matinal dos galos – como o que ainda escuto aqui, hoje, no Brasil profundo do Cerrado, mas incomum, agora, nas grandes cidades. Naquela manhã, tudo isso parecia apetitoso, um banquete com o qual eu me refastelava em minha imaginação. Hoje, após muita terapia, posso me arriscar a dizer que seria melhor definir o prato e tudo o mais como sedutores desejos inatos de naturezas não tão imediatamente percebidas. De qualquer forma, naquela manhã, meus pequenos olhos caracteristicamente grandes, constantemente arregalados e saltantes, eram parte de um rosto mesmerizado, apoiado em meus braços cruzados sobre a mesa, fixados visualmente na comida de minha prima e emocionalmente na imagem que dela nutria, implorando-lhe uma garfada – uma cena repetidamente mencionada, com carinho e bom humor, por minha prima-madrinha anos a fio, daí sua permanência entre minhas memórias. Então, enquanto minha prima comia, seu prato era devorado por meus olhinhos pedintes e por minha imaginação, em uma súplica silenciosa, mas ostensiva, e, como essas linhas testemunham, tornou-se uma importante memória gustativa e emocional de uma infância de um tempo perdido, como as “Madeleine de Proust”. E como toda memória gustativa, o bife com batatas fritas foi muito mais que comida, foi uma experiência cheia de adendos e significados. Aquele momento e seu peso em minha história familiar tornaram-se definidores de tendência e comportamento pessoal. Construiu-se uma cena do folclore familiar e minha imagem de glutão – não sem fundamento, pois haveria muitas outras cenas semelhantes, especialmente envolvendo meu irmão mais velho e minha irmãzinha mais nova, em nossas disputas por batatas fritas e bifes à milanesa. Minha irmã caçula, sem dúvida, repetidamente uma pobre vítima de um menino enciumado e guloso. De qualquer forma, não há como esquecer aquela cena, aquele dia específico, pois era um bife de outro tempo, com minha prima favorita em todo seu esplendor, em um outro Rio de Janeiro, em um outro Grajaú. Uma cena, aos meus olhos, digna dos “anos dourados”, quando ainda se viam alunos e alunas do Colégio Militar, do Pedro II e do Instituto de Educação orgulhosos de seus uniformes, a caminho das aulas no bairro vizinho da Tijuca. O prato servido, seus aromas, sabores, cores, a presença de minha mãe e minha prima – que junto à minha avó materna seriam as primeiras mulheres de minha vida – e as representações que foram atribuídas a eventos, pessoas e sentimentos associados àquela casa e àquele bairro despertam e continuam a alimentar desejos, do corpo e da alma, e me embalam com nuances de conforto, carinho e proteção. Assim lembro o espaço e o lugar da cena em que o tal bife foi servido por minha mãe e saboreado por minha prima e, por que não por mim também, ainda que mentalmente, esperando que os efeitos e reverberações decorrentes dessa lembrança oferecida compensem qualquer falha em minhas recordações: uma copa e cozinha mágicas, cheias de amor familiar, de vida pueril, de desejos ingênuos, em um subúrbio pacífico, arborizado, seguro, em uma cidade então maravilhosa, ou que assim o seja eternamente, pois talvez não devamos deixar que males contemporâneos afastem à esperança e a ideia de um Rio belo e rico de vida. Foi naquele espaço, lugar e momento que meus olhos só existiram para secar aquele prato de bife, arroz, batatas fritas e ovo estalado, suculentos, confundindo-se ao mesmo tempo com uma paixão infantil. Esse olhar, esse estado de graça e essa felicidade permaneceram como um momento símbolo de uma bonança antes de tempestades familiares e sociais. Naquele momento tudo era prazer: a comida e a companhia de duas mulheres que me deram muito carinho em minha primeira infância. Natural que assim fosse. Afinal era um filho temporão, de pais bem de vida, em um lar seguro, feliz, frente a frente com um bife daqueles, alto, dourado por fora, vermelhinho por dentro, batatinhas recém descascadas e fritas, lindas, ovo fresco frito crocante com gema mole e o rabo de cavalo de minha prima?! Quem viveu os anos 1960 sabe o que representava o rabo de cavalo de uma mocinha de “classe média”, branquinha, cabelos negros, lisos, lindos, balançando ao acaso, em sua calça Saint-Tropez, sapatilha e blusinha, como nos anúncios da televisão e nas capas e contracapas de discos da bossa nova que partia! O prato, preparado à perfeição, creio fora feito por nossa cozinheira, outra mulher, sem dúvidas necessariamente forte por conta de sua condição social e pessoal, provavelmente supervisionada por minha mãe, outra mulher à frente de seu tempo, esposa, mãe, funcionária pública e que, mais tarde, aos cinquenta anos, se formaria advogada e assistente jurídica da Procuradoria do Rio de Janeiro. Assim, a permanência desta memória, sua recorrência e urgência devem-se também em grande parte pelo convívio com mulheres fortes, que nunca foram poucas em minha família, desde minhas avós e tias à minha querida irmã. Atribuo ao convívio com elas meu razoável senso de respeito às mulheres, de reconhecimento e de domado desejo. Esse convívio, entretanto, também contribuiu para a formação de um ser peculiar. Desde muito cedo, em vários sentidos, me senti por vezes só ou deslocado, inadequado, um patinho feio. O contato próximo, nos anos formativos por vir, com prima-madrinha e sua mãe, irmã de minha mãe, contribuiriam para meu resgate e ajudariam na tarefa de suprir a lacuna que seria deixada por meu pai, ao falecer, anos depois, devido a um câncer atribuído ao tabagismo e a úlceras decorrentes do alcoolismo, da boêmia e de outras tentações da carne. Essas mulheres me ajudaram a enfrentar, ainda que de forma limitada ou sujeita a controvérsias, os efeitos de imaginadas e reais inadequações, tornando-se referências com as quais tive o privilégio de contar por muitos anos, em situações e momentos específicos, comuns em um menino órfão de pai. Por essas e outras estórias que teria para contar, aparentemente mais extremas, por vezes me sinto como Philippe Petit ao cruzar os céus de Manhatan, pé ante pé, sobre uma corda estendida entre as hoje extintas torres gêmeas. Por isso memórias gustativas e afetivas com origens, contextos e desdobramentos ricos e não menos trágicos, têm me guiado pela vida, ajudando-me a equilibrar mente e coração, ao medir desafios, avaliar riscos, fazer escolhas ou solucionar problemas. Na manhã que lhes relato, antes do vendaval que devastaria minha família imediata, talvez já lá estivessem sinais do por vir, mas eu era felizmente jovem e inocente, ignorando detalhes, espaços, lugares e contextos de tudo que poderia se passar ou existir além daquele bife com fritas, de minha mãe e de minha prima-madrinha. Formaram-se em minha memória representações de sabores, aromas, cores e afetos que me protegeram, embalaram e continuam a embalar com nuances de conforto, carinho e proteção. Sim, à tranquilidade e segurança como as daquela manhã, atribuo a força que me põe a seguir todos os dias. O Grajaú era um bairro de vizinhança tradicional entre a autodenominada classe média da zona norte do Rio de Janeiro, em meados dos anos 1960. No bairro, havia algumas ruas ainda de paralelepípedos, mas em sua maioria já predominavam as asfaltadas pela modernidade. Crescer no Grajaú foi um privilégio. Desde muito pequeno, apesar de certa tendência eremítica, pude aproveitar e andar de bicicleta pelo bairro; jogar futebol, soltar pipa e brincar em festas juninas na rua; conhecer toda a vizinhança; caminhar sozinho até a academia de judô, à escola ou à Praça Edmundo Rego para comprar sorvete no depósito da Kibon, pão na padaria ou algum item que faltasse, no mercado Big, onde peças inteiras de bacalhau eram postas à vista no balcão, a testemunhar a forte herança portuguesa do Rio. Enfim, privilégios que se tornariam práticas perdidas e esquecidas na rotina carioca com as mazelas do crescimento urbano desordenado e o esvaziamento econômico da cidade maravilhosa. Muitos outros sabores daquele bairro da zona norte do Rio vieram e conseguem sobreviver comigo: vendedor de “tringuilim” (do pirulito de caramelo e do canudinho biju), a bicicleta de padeiro cheia de pães doces, a garrafa de leite deixada nas portas das casas de manhã e o cachorro-quente do Bob. Assim mesmo, sem o “s”, o Bob, uma lanchonete de bairro, do Grajaú de então, na Engenheiro Richard, quase na Praça, que foi meu primeiro contato com fast-food (expressão que só chegaria bem mais tarde) e onde eu iria saborear meu hot-dog ou meu hambúrguer. Foi para lá que me dirigi, depois que outra prima, que retornara de Hamburgo, na Alemanha, onde havia morado, ter levado minha irmã ao Bob para provar um hambúrguer. O relato dessa aventura, por elas, obviamente, causou certa confusão em minha cabeça – nome novo, cidade distante, sanduíche misterioso e minha exclusão da expedição –, despertando inveja e gula. Pão duro e independente, como sempre, não me dei por rogado, raspei minhas economias e fiz minha própria expedição, decidindo-me por um hot-dog e um soda limonada caçula da Antártica. Escolha provavelmente inspirada por filmes americanos e tudo daquele país como, especialmente depois do pouso na lua, Jeannie é um Gênio, Capitão Nelson e Armstrong – a quem assisti pisar em solo lunar, à noite, em nossa televisão Telefunken, ao lado de meu pai. Quem não quis ser astronauta depois de 1969? Além do mais, o cachorro-quente do Bob vinha com aquele molho, bem brasileiro, de cebola, tomate e pimentão, típico das Lojas Americanas e de aniversários de criança! Mas a zona norte do Rio não ficou em minha memória somente pelo bife, batatinhas e ovo estalado, sorvete Kibon, cachorro-quente e pirulito de caramelo. Foi lá, também, que tive meu primeiro contato com paladares bem refinados. Ainda guri, fui introduzido a ostras frescas, na casa de um amigo de meu pai, na Borda do Mato – em um sábado, dessa vez, bem quente! Ai que saudades do tempo que comer ostra não era caro, nem pedante, que podiam ser comidas sem afetação, em uma casa de subúrbio, do “balneário” – no dizer da Folha, que meu pai me encorajava a ler, junto com o Jornal do Brasil, para aprender português (espero que tenha surtido efeito). É. Naquela época, os jornais ainda podiam ser uma forma confiável de aprender o bom português. Lembro bem desse dia em que experimentei ostras pela primeira vez. Saímos de casa, no Grajaú, e fomos até a casa, na Tijuca, de um amigo de meu pai, que tinha um nome muito estranho, Kastrup, que sempre me lembrou ketchup! Muitas coisas daquele dia, que começou bem cedo, permanecem em minha memória: a filha do Kastrup, também linda e com rabo de cavalo (talvez um fetiche precoce); a alta temperatura, aumentada pela rocha gigantesca de um morro vizinho, colecionando o calor de um dia de verão sem brisa; a eterna casa de vila dos subúrbios cariocas; e meu pai e Kastrup na cozinha — ah, sempre a cozinha —, devorando uma travessa de ostras, que só muitos anos depois vim a saber que ainda estavam vivas; minha mãe e Sra. Kastrup sentadas conversando animadamente; minha irmã, minha musa do dia – a jovem Sta. Kastrup – e eu tomando nossos caçulinhas – confesso um pouco decepcionado pela ausência de bifes à milanesa e batatinhas fritas. Sim, não conseguia compreender a excitação dos adultos em torno de um prato tão simples – uma travessa branca, cheia de gelo e conchas gigantescas que deveriam ser sugadas com gotas de limão. Mas não é que gostei quando provei! Ah, limão. Limão me lembra camarão, outra memória gustativa associada ao mar e a meu pai. Como na estória das ostras, minha primeira lembrança de comer camarão foi sob forte calor. Sensações associadas a um verão passado em Paquetá, em uma casa imensa, com toda a família, minha mãe, minha babá Lázia, meu pai, meus irmãos, tios, tias, primos, meu excêntrico avô e minha querida avó, uma multidão, compartilhando um banheiro, muita farofa, praia, passeios de barco e o camarão frito. Com casca e tudo, que meu pai adorava, com limãozinho espremido. Felizmente meu pai sempre foi um grande incentivador de minha precocidade e me acolheu de bom grado no círculo dos homens a comer os moluscos bivalves, as ostras. Com certeza, a partir daí, o mundo nunca mais foi o mesmo para mim. Terá sido aquela overdose de ostras a responsável pela libido precoce de minha infância, que causou tanto rebuliço na minha cabeça quando meu tio notou que me alterei ao assistir a uma cena com a Yoná Magalhães, na telenovela da Gata de Vison, uma das primeiras da Globo. Bem, adorei o gostinho de limão, como da amada soda limonada da Antarctica; a textura dos das ostras, parecida à das uvas vermelhas que amava, espremidas a descer inteiras adentro minha pequena garganta; bem como adorei uma de minhas primeiras participações em uma roda de homens. A segunda roda da qual participaria, começaria a revelar um novo sabor à minha infância: o gosto amargo de viver em uma ditadura a alterar os tons pastéis das cores do meu Grajaú. O ano era 1969, novamente verão, mas a temperatura estava alta não só devido a condições climáticas. Não fazia muito estudantes brasileiros, franceses, americanos, haviam ido às ruas com gritos de protestos e palavras de ordem que deixariam marcas profundas no futuro do mundo. Política, família, costumes, demografia, tudo seria diferente dali em diante. Na China a cidade iria para o campo, as escolas seriam fechadas, os jovens sob o comando do velho timoneiro iriam humilhar e reverter a ordem em um sistema conturbado. Nos Estado Unidos jovens iriam desafiar a ordem do estabelecimento cultural mais influente no mundo moderno e desbundar. Na Europa, jovens revolucionários (alguns de cabelos vermelhos) dariam um grito de sufoco, em particular na França, espremidos entre duas potências nucleares, buscando sua real libertação após duas décadas de reconstrução sob um paternalismo político e econômico dos dois grandes impérios pós-guerra. É, tudo mudaria depois disso. A família tal como meus pais a conheceram deixaria de existir, a pílula traria um furor de liberdade sexual, a luta feminista nos EUA traria junto a imagem de uma mulher livre e liberada que não aceitaria mais a submissão no lar ao macho provedor. Mas para mim, isso tudo, antes ausente em minha realidade infantil, começava a ocupar espaço em minha cabecinha precoce. Na biblioteca de meu pai, à sua sombra, eu primeiro folheava Calado, Veríssimo (o pai), Prado Junior, Furtado e Jorge Amado – os quais leria logo adiante. Ouvia as notícias dos sequestros e assaltos a bancos e as discussões em família. Então, repeti parte disso em uma noite de sábado em que meu pai e minha mãe me levaram a uma reunião, na casa de amigos de meu pai. Ele havia trabalhado na Confederação Nacional da Indústria e, como homem altamente comunicativo e brilhante, logo se tornou amigo de pessoas influentes, inclusive de futuros ministros dos governos militares. Sentado ao lado de meu pai, quieto até certo momento, ouvia a conversa deles muito excitado. Quantas ideias, quantas histórias, homens cultos e falantes, certamente regados a uísque, até que em determinado momento me pus também a falar. Os senhores ouviram com atenção o que tinha a dizer e me faziam perguntas. Achei que tinha abafado, até que, ao deixarmos a casa, em um taxi, minha mãe pôs-se a reclamar a meu pai que ele deveria parar de falar sobre política comigo ou me encorajar a ler os jornais, pois, fui entender, havia externado várias opiniões “comunistas” e que algum dos senhores só poderia achar que repetia ideias de meus pais. Bem-vindos aos anos de chumbo. O gosto da soda limonada, do cachorro-quente, do bife com fritas, das ostras passaria a ter um gosto amargo, por muitos anos, de censura e repressão. Adeus bife com fritas. Permaneceria, assim, uma indelével lembrança de outro tempo, quase de outra vida daquela nascida em uma casa ainda tranquila, segura e funcional, ao menos aos meus olhos ainda inocentes. Na casa em que minha avó me ninara em uma cadeira de balanço na varanda, por horas a fio, tentando parar o choro de um bebê que fez fama na vizinhança. Na casa em cuja sala descobri a minha melhor amiga, ou inimiga: a televisão. Na qual assisti aos primeiros jogos de futebol com meu pai e aos desenhos do Johnny Quest. Onde ficava o sofá no qual peguei no sono esperando meus pais voltarem do cinema com doces, ou meu pai retornar tarde do trabalho com algum brinquedo. De onde minha mãe e eu partimos diversas vezes para ir ao convento de Santo Antônio ou à confeitaria Colombo, no Centro, do Rio de Janeiro. Na casa pela qual minha irmãzinha me seguia incessantemente, dando seus primeiros passos, pedindo para que brincasse com ela. Minha irmã pequena que um dia seria como minha gêmea, amada, mas que àquela altura confundia-se com a perda de atenção privilegiada, pois até então, por dois anos, havia sido quase único, temporão em doze anos de outro mais velho igualmente quase único a seu tempo. Na casa onde me sentei de alma aberta a admirar meu irmão mais velho, irmão grande, aos meus olhos quase um herói, ainda que contra sua vontade, empunhando sua lendária guitarra, recém-chegada da Alemanha, trazida por meu tio que era da Marinha Mercante e do Loyd – a mesma guitarra que hoje meu irmão orgulha-se de apontar ser igual a uma do Frejat. Na casa em que, ainda que fugaz ou ilusoriamente, fui muito feliz com bife com fritas. Sim, tudo estava mudando; só eu não sabia e a família de minha mãe, lacerdista, de direita, insistia em ignorar ou virar os olhos para o outro lado. O quebra-pau já devia acontecer nos diretórios acadêmicos e nos porões da ditadura, mas afora alguns muros da nossa rua, que amanheciam pichados, eu vivia em uma bolha. Letras vermelhas sobre muros brancos somente me intrigavam, mas não faziam sentido nem me alertavam sobre um confronto ainda silencioso para mim. Era uma época em que a vida ainda era apenas a segurança de meu lar, o convívio com minha pequenina irmã e a admiração por irmão grande em sua juventude efervescente de classe média alienada. Era uma vida colorida por finais de semana em Mury, em Friburgo, na serra fluminense, ou preenchidos pelas primeiras tentativas de leitura de livros de meu pai, expostos nas prateleiras da sala de estar, e das manchetes dos jornais de sábado, lidas aos pés de meu pai em sua poltrona, o qual, quando interrogado, muito precocemente, me enchia de informações sobre a vida dos adultos, sobre história, política e economia que, como minhas primeiras leituras, eram totalmente inapropriadas à minha idade. Mas tudo estava a mudar, eu apenas não havia me dado conta ainda. Informações prestadas que por si só confirmam a impossibilidade de que minha família ignorasse a oposição ao regime, apesar de aparentemente voltar os olhos para longe dos muros pichados. Havia paixões lacerdistas, a foto de Negrão de Lima – que minha avó mantinha em seu pequeno apartamento ao lado de nossa casa –, e compreensíveis seduções que uma cultura nacional essencialmente imediatista, afeita a agendas coletivas e cristã, tendia a semear em lares como aquele. Na minha cabeça, começaria uma confusão, uma esquizofrenia que me acompanharia em minha formação e carreira como oficial de Marinha. Apesar de meu pai tinha sido do Partidão e de um primo ser preso e torturado, tia, tios e outros primos seriam próximos de presidentes militares e outros mais. A recordação que tenho da manhã seguinte ao sequestro do embaixador americano e das conversas entre meu pai, minha prima (aquela mesma do prato cobiçado) e outros familiares; ou quando minha mãe repreendeu meu pai, ao sairmos naquele sábado à noite, da casa de seu amigo, aparentemente ligado ao regime, por deixar eu participar daquela conversa de adultos eram fortes sinais da posição política familiar. Em minha lembrança, minha mãe dizia ao meu pai que ele não podia incentivar minha precocidade sobre certos assuntos políticos, pois eu emitira opiniões no mínimo constrangedoras. Muito comprometedor. Não, éramos coniventes. Assim, silenciosamente, outra época se desdobrava, em que pensar diferente, ser curioso ou ler de tudo poderia ser perigoso. Isso impunha a muitos “comunistas”, como alguns familiares nossos, riscos, torturas e clandestinidade, mas em 1969, eu tinha apenas sete anos. Como não ignorar um pouco ou tudo isso? Afinal a vida podia ser cor de rosa – que uso suspeito da cor! –, especialmente no milagre econômico, como até então vinha sendo para minha família. Contudo, fatos e suas memórias podem ser muito diferentes, dependendo da perspectiva de quem as vê ou revê. Nosso presente é testemunho disso, pois, passados cinquenta anos, muitos que nem tiveram suas vidas tão tocadas por aquele regime lembram daquilo de uma forma muito diferente de mim, a ponto de, por vezes, se deixarem manipular por arrivistas mal-intencionados, a surfar ondas ou marolas criadas e alimentadas por ambiguidades históricas e verdades relativas, clamando pela volta a esse passado não tão rosa – mais um uso infeliz da cor! De qualquer forma, um primo comunista e ativista estudantil que seria vítima da covardia da perseguição política e, após ser preso, torturado e libertado, permaneceu clandestino por algum tempo em nossa casa à espera do exílio. Isso me salvaria, anos mais tarde, na escola militar, de um doutrinamento cego. Afinal, como poderia eu aceitar que meu primo ou pai comiam criancinhas? Bife com fritas podia ser uma delícia, mas há limites para tudo na vida. Mas naquele tempo, naquela casa, em minha casa burguesa, com um pai ainda sóbrio, ex-combatente da FEB, que abandonara o partidão depois de ver a esposa do chefe do partido comparecer a um evento com um casaco de peles – em pleno Rio de Janeiro, nos anos 1950 – era fácil ignorar muita coisa. O sonho do presidente bossa nova ainda pairava tardiamente, não ao ritmo ou hegemonia de Jobim, mas já de forma bizarra embalado por slogans de ame-o ou deixe-o e por uma contracultura com outros tons, cada vez mais tropicais. Felizmente, como o velho barbudo dizia: “tudo que é sólido desmancha no ar”. Assim se daria com o milagre brasileiro do regime, que começaria a desmoronar em 1973, mesmo sem nunca ter se tornado de efetivamente sólido. Nem mesmo o sonho de uma Brasília modernista e símbolo de um país do futuro sairia intacto. Apesar de já bem construída, muitos órgãos federais resistiam a ser transferidos para a “novacap” – compreensível, especialmente quando a escolha recaía entre as areias de Copacabana e Ipanema, da Guanabara, e o terrão vermelho da “novacap”, do Cerrado. O futuro e o país esqueceram de combinar melhor tudo aquilo. É, a bossa nova recebida no Carnegie Hall e cantada por Tom e Sinatra cederia seu lugar a novos movimentos. O tempo passa e com ele passaria ao esquecimento toda a sofisticação de um baiano, um certo João. Seu topete bem-comportado seria substituído pela irreverência dos jovens paulistas da Pompéia, cantando o domingo de um novo baiano, outro Gilberto, não mais João. A própria Bossa Nova deixava sua temática local e intimista e acolhia vozes e contestações mais amplas, nacionais, sobre nossa ordem social aparentemente desordenada, ou melhor injusta e ineficiente. Sim, tentaríamos ir em frente, seguindo em canção, de braços dados, sob a ilusão da igualdade, fazendo acontecer se não esperássemos tanto. As pessoas pareciam querer mais que bife com fritas. Por outro lado, tudo pode ser questão de gosto, mas é difícil imaginar que aquele bife com fritas não fosse melhor que o servido em um restaurante por quilo. Que os versos do “poetinha camarada” pudessem ser substituídos por ritmos universitários contemporâneos. Pode-se preferir uma calça de elastano, uma camiseta de merino ou um piercing na testa à calça Saint-Tropez e rabinho de cavalo, mas como negar que aquelas batatas, naturais, fritas em casa não fossem mais saborosas que as da McCain ou do Donald. Da casa típica do Grajaú, de minha origem suburbana viria minhas primeiras experiências de não pertencimento. Ao ir morar no Leblon, em 1970, um bairro que carregava um glamour boêmio, de intelectuais e artistas, da zona sul do Rio, mas ainda muito distante do Leblon do Manuel Carlos, encontraria outro mundo. Um Leblon em que na Dias Ferreira se destacavam ainda apenas pequenos comércios de bairro, como uma padaria, alguns botequins, uma loja de ferragens, uma de material de pesca e o eterno, ao menos em minha memória, La Mole. Mudanças como essas, em minha vida e em meus ambientes, contribuiriam para ainda mais para aquela sensação de dualidade, pois passei a ter sempre os pés em dois mundos, quaisquer que eles viessem a ser. Aquele bife de primeira, batatinhas naturais, descascadas e fritas sequinhas e um ovo estalado, com fundo crocante, borda marronzinha, gema mole e clara branquinha, sem flutuar em gordura perderam-se na memória do que foi um dia a minha e a sua comida caseira, perderam-se no caminho de uma aventura globalizante que nos privou de traços, manifestações e tradições próprias, em benefício de padrões e estórias alheias. Uma aventura sem a qual políticas identitárias talvez nunca houvessem sucedido agendas coletivas hoje esquecidas, mas ainda urgentes. Por isso, não deixo de pensar que minha infância não tenha sido apenas um ponto na despedida de um mundo que somente saboreei brevemente. Tornou-se difícil afastar uma certa e recorrente nostalgia em minha existência e experiência no mundo. Aquele almoço aconteceu quando ser intelectual ainda era algo glamuroso, não simplesmente uma forma de distinção. Aconteceu enquanto o Brasil ainda queria se industrializar e ser moderno; e não conservador, fundamentalista e retrógrado, como talvez também seja, hoje, o resto do mundo. Aquela tranquilidade, aquela casa, não durou muito tempo. Primos foram presos, torturados e exilados, no Chile e depois Itália. O tal JK terminaria morto em um acidente de carro, ainda controverso para muitos e conveniente para outros. Eu vestiria uma farda verde oliva, um Branco de Verão com o nó de Nelson, daria a volta ao mundo em uma viagem de ouro, indenizaria as Forças Armadas e desbundaria com mochila nas costas, em um afã saudosista, em uma comunidade hippie em Goa. O país seguiria seu destino agrícola e o agro viraria “pop”. O hambúrguer se tornaria comum e as cozinheiras da classe média virariam cuidadoras dos mesmos patrões, agora idosos. Das relações e espaços próximos da família, restam apenas óleo, manteiga, linguiça, Knorr e Sazon. Sim, se você quiser dar gosto fácil à comida, especialmente no Brasil, hoje é só tascar uma xícara de óleo, uma cabeça de alho, um ramo de louro, um quilo de sal, linguiça à vontade, o famigerado caldo Knorr ou Sazon, e bum! Tudo isso e vinte minutinhos de panela de pressão fazem maravilhas. Está no Instagram! Como um sócio que tive em um restaurante, em São Paulo, me faria perceber, o que faz um bom risoto não é o “mantecare” – a técnica italiana de emulsioná-lo com manteiga –, nem o uso de um bom caldo de frango artesanal em seu preparo, mas sim e essencialmente a adição de um bom e sólido tablete de caldo Knorr e dois quilos de queijo – como eu e meu subchef pudemos verificar com a ajuda do paladar do tal sócio, apurado inclusive paradoxalmente em temporadas de esqui em Aspen e nos Alpes. Após suas insistentes reclamações de que nosso risoto não tinha sabor, pedi ao subchef para adicionar caldo Knorr ao caldo base de frango natural que preparávamos. Adicionei ainda muito queijo e meu sócio amou, passando a elogiar o tal risoto! Hoje, o sujeito pode ser viajado, descender de uma rica cultura gastronômica levantina, morar nos Jardins, em São Paulo, mas seu paladar passou a ser dominado por sabores artificiais e industrializados. Afinal, gordura e aditivos químicos vão direto a certos neurotransmissores programados há milhares de anos pelo estilo de vida de nossos antepassados nômades. Nossa dieta ainda é determinada por um estilo de vida com alto consumo calórico. Apesar de mais preocupação com questões de saúde e estéticas, alterações no comportamento alimentar não só enfrentam marcadores incrustados em práticas ancestrais, como também recentes substituições da culinária caseira e artesanal por processos industriais e por alterações nos arranjos sociais, mais preocupados agora com outras demandas. Não surpreende a frequente luta de muitos contra a azia e o estômago pesado, que advêm do consumo de alimentos com alto teor de gordura, hoje teoricamente indesejado. Minhas lembranças daquela copa, daquela cozinha, daquele prato, são temperadas por práticas culinárias artesanais e relações afetivas bem mais prováveis em arranjos sociais de outra vida, de outro tempo, de outro boi, de outra pastagem, de outra galinha, de outro campo. Aquela manhã junto com todas as outras pessoas, fatos e lugares ficaram inscritas em mim, não sei se em minha alma, em meu inconsciente e em representações. Vocês são livres para escolher onde ou como nomear o destino temporário ou permanente de tudo isso. Certamente muitas coisas sobrevieram a todos eles, transformando-os, enriquecendo-os e, provavelmente, adicionando-lhes complexidade, atrevo a dizer. Sem dúvida, o carinho, presença e peso daquelas e de outras mulheres, uma intensa relação de desejo e prazer com comida, inclusive em suas conotações eróticas ou sexuais, uma apenas parcialmente resolvida ânsia de reconhecimento, estima, própria inclusive e afeto, bem como uma curiosidade notável, que continuo a cultivar e considero uma bênção se estabeleceriam como os elementos definidores de minha personalidade e de meus caminhos – ao menos é assim que me enxergo, em movimentos de autoanálise contínuos, erráticos e inevitavelmente inconclusos. Tais traços emergem em muitas outras estórias que tenho ou gostaria de compartilhar. Comparo-os a pontas de novelos, que ao serem puxados, trabalhados e vez por outra desembaraçados podem dar origem a algo útil, belo, reconfortante ou com algum sentido, prático, emocional ou racional. Logo, vem-me à mente minha primeira experiência gastronômica desafiadora: a primeira vez que provei ostras vivas, com meu pai, e, acima de tudo, aquele bife com fritas. Fonte: JuRicardo Santos. Disponível em: . Acesso em 26/10/2026. FONTE: Fotos do Rio Antigo , disponível em . Acesso em 26/10/2026.

  • A Melhor Hora do Meu Dia

    O café da manhã é uma boa medida das fases de minha vida. Minha primeira recordação dessa refeição é sobre os ovos quentes e a “geléia” de mocotó Colombo servidos a meu pai, em minha tenra infância, enquanto ainda não sentíamos os abalos do terremoto por vir. Photo: K2PhotoStudio, via Shutterstock, Stock Foto ID: 380603521 Após o cataclisma que abalou os alicerces de minha família, o café da manhã e outros símbolos da boa vida familiar se foram e somente tive contato consistente com essa refeição alguns anos mais tarde. Infelizmente, então, essa refeição, de maneira geral, resumiu-se a um café com leite, pré-misturado e docíssimo e a um pão de segunda com margarina, na escola militar. Nunca me acostumei ao sabor do leite, que sempre associei ao líquido doce e morno das mamadeiras. Assim, meus anos de vida militar resumiram-se, no quesito café da manhã, na melhor das hipóteses, à escolha entre tal mistura ou um café preto da pior qualidade. Essa situação somente seria alterada, muitos anos depois, em um Kibutz e em uma vila dos Alpes. Em Israel, tive contato com um pequeno-almoço diferente, repleto de iogurtes, queijos frescos, azeitonas, tomates, pepinos, pão pita e muitas frutas. Na Áustria, descobri uma rica variedade de pães, frios, manteiga fresca e café preto bem feito. A partir de então, fiz as pazes com essa refeição e redescobri seu valor social: um momento de alimentação saudável ou saborosa e de confraternização com as pessoas próximas, de nosso convívio diário. É essa a definição que minha esposa dá ao nosso café da manhã: a melhor hora de nosso dia. Entre queijos frescos, torradas, bom café preto, frutas e geleias, tudo sem exagero, confabulamos sobre a vida, enquanto ouvimos a CBN, a BBC, a Radio France, a CNN, ou o Globo Rural, conforme o dia da semana e nosso humor. Daí surgem conversas e ideias interessantes, sobre nós e as pessoas, sobre o país, o mundo e o estado das coisas. Muitas ideias doidas, associações tresloucadas e reminiscências afloram, a partir das quais nos perdemos em deliciosas conversas. Foi da comparação entre o tom de cobertura dos eventos jornalísticos, pelos apresentadores da CBN com os da BBC e da Radio France, que saltamos para questões sobre nosso engajamento, no Brasil, em discussões de caráter coletivo — ou que ao menos deveriam o sê-lo. Enquanto nossos apresentadores — quem sabe influenciados pelo estilo de jornalismo estadunidense ou, em certa medida, por legítima afinidade com aquela cultura — apresentam o noticiário em um formato de quase entretenimento e de forma engajada; os britânicos e franceses, ao menos dessas duas rádios, o fazem de forma destacada e formal, com enfoque especialmente nos eventos. Enquanto no primeiro caso, conta-se quase uma estória; no segundo, relata-se um ocorrido. Verdade que talvez seja relevante considerar-se em que medida a vida política do Brasil, transformada em quase uma novela, não contribuiu para esse estilo atual de nossos apresentadores de televisão. Há que se comparar o William Bonner e a Fátima Bernardes dos anos 1990 aos dos dias atuais — ela inclusive optou incondicionalmente pelo entretenimento. O fato é que hoje, parecemos mais preocupados com os próximos capítulos de uma trama, do que sobre como poderíamos de fato sair dessa trama. O salto agora será grande e exigirá bondade e esforço do leitor, pois pergunto em que medida nossa formação,ou não formação, como nação pode contribuir para esse fenômeno? Tomo a liberdade de ignorar a aparente ruína da democracia e da política que tem sido verificada em outras paragens, em maior ou menor grau. Nos EUA, há Trump versus Biden, na Holanda, França, Reino Unido, Hungria e Polônia — limitando-nos a exemplos “ocidentais” — tons de extrema-direita vem ameaçando tudo que associávamos à estabilidade da relação entre democracia e alguma versão de capitalismo. Meu argumento é que se fixarmos o foco da discussão sobre o estilo dramático-jornalístico de nosso tempo, no Brasil, à questão da falência da política e da democracia, corremos o risco de contemplar sintomas comuns aos pacientes, mas cujos fatores que influenciam o tema provavelmente serão diversos e, por vezes, particulares a cada caso. O ponto que desejo fazer é sobre uma característica local, já bem discutida na academia: a ausência de um sentido coletivo na sociedade brasileira. Em “Os Bestializados”, José Murilo de Carvalho analisou a questão da cidadania, das agendas envolvidas em crises do Rio de Janeiro, nos primórdios da República. Em certa medida, sua análise expõe a falta de um cimento social em torno de um bem comum, de uma causa amplamente coletiva, precisamente um dos pressupostos do Estado moderno, particularmente construído sobre teses contratualistas. Partamos do argumento batido de que o que nos distinguiria dos estadunidenses seria nosso tipo de colonização. Enquanto por lá teria ocorrido uma ocupação territorial por novos grupos sociais, com interesses de construção de uma “nova” sociedade; aqui teria corrido uma ocupação movida por interesses exploratórios, ou seja, o interesse primário não seria a construção de uma comunidade, mas o uso imediato dos recursos, ainda que por intermédio do esforço alheio. Enquanto em outras paragens, houve uma transposição de grupos sociais em números consistentes, que possibilitassem uma igual transposição de práticas e expectativas sociais, entre elas de um bem comum e sua busca; aqui ocorreu uma ocupação por indivíduos com interesses manifestamente individuais — importante notar a escolha do termo “individual”, pois se entende que um interesse possa ser privado sem que se renuncie a considerações coletivas (a ideia de função social da propriedade não é uma invenção da Constituição Federal de 1988; ela já estaria presente em considerações de pensadores como Adam Smith e John Locke, queríamos ou não reconhecer isso). Contudo, a diferença entre transposição e ocupação pode ser entendida como um fator relevante na forma como o Estado e a nação são construídos. Enquanto no caso estadunidense é possível perceber como os termos construção do Estado (“state building”) e construção da nação (“nation building”) tendem facilmente a confundir-se; no caso Europeu (de nossos colonizadores, gostemos ou não disso), a existência da nação muitas vezes é o motor gerador da construção do Estado. Por outro lado, em Pindorama, a coisa mais próxima de nação que aqui chegou, até o século XIX, foram os africanos, de quem herdamos trações e tradições maravilhosas — apesar de todo nosso racismo —, mas que para cá vieram desterrados e sem qualquer ideia de identidade, a não ser com relação a sua origem comum, no mesmo continente, e aos rótulos nefastos que os não negros lhes atribuíram. Nesse cenário, a única fonte de cimento social que seria razoável esperar seria a solidariedade humana, de fundo religioso ou de qualquer outra fonte cultural, menos a ideia do bem comum fundamental das teorias contratualistas e do Estado moderno construído, essencialmente, sob os alicerces de uma nação ou simultaneamente a ela. Nesse sentido é que a obra de Murilo de Carvalho ganha importância, pois apresenta uma argumentação esmiuçando a construção de um Estado sem a consolidação prévia, tampouco, concomitante da nação. Sejamos, então, sinceros, quais os movimentos que apontam no sentido de uma nação, no Brasil: Getúlio e seu Estado Novo, pontualmente com Villa-Lobos, Ari Barbosa, Domingos da Guia, etc.? Os Modernistas de 22 e a pujança de uma São Paulo, de imigrantes ou quatrocentona, em ascensão? Uma capital federal com uma natureza abençoada e uma princesinha do mar que atraiu e atrai tanta atenção do exterior e alguma inveja de locais? O futebol, a seleção canarinho e seu passado de glórias, que parece nunca mais voltará? O ufanismo do regime militar, por si só evidência da herança doutrinária e ditatorial dos “jovens turcos” do exército brasileiro e, não por coincidência, lembrando o Estado getulista? A controversa TV Globo? A ascensão do neopentecostalismo, sua força política e viés de dissenso social? Não, nada disso teve sucesso em moldar uma nação. Pior, o próprio andar da carruagem, neste século XXI, de possibilidades infinitas imprevisíveis, parece nos afastar cada vez mais de nossa dimensão humana, especialmente por conta da forma como novas tecnologias vem influenciando o convívio social e comportamentos coletivo e individual. Parece que o Brasil parece se afastar, cada vez mais, de qualquer cimento de ordem social ou humanística. Seja da pretensão a um bem comum ou à solidariedade. A empatia parece pertencer ao passado. Assim, não podemos nos surpreender com noticiários tornados entretenimentos. Não há qualquer vontade individual ou coletiva, com força política, mas apenas a curiosidade de acompanhar o desenrolar de assassinatos, feminicídios, tramas político-criminais ou desventuras de influenciadores digitais, em convívios bizarros, em casas monitoradas. Nada mais semelhante à maratona de um “Breaking Bad”, “House of Cards”, ou “Succession”. Sucessos de público que todo editor de telejornal inveja e tão verídicos quanto os demais “docu-filmes” que pululam os serviços de streaming. Mas com licença, para não surtar, felizmente chegou a hora: vou tomar meu café da manhã. Saravá!

  • Amsterdam Summer Festival’s Foodscape

    A visit to Amsterdam's "Roots Festival, 2018": storytelling and images of a multicultural foodscape, and of a sizzling melting pot of postcolonial identities [Roots Festival: https://www.amsterdamroots.nl/ ] [Source: https://www.amsterdamroots.nl/gallery/festival-2018/] Departure and Arrival [All photos from here on are by the author] It was a course assignment on a Sunday and I had mix feelings about it. While part of me wanted to stay in bed, the other part was anxious to meet my colleagues outside the school setting. Of course, there was also the curiosity to go to a multicultural event in a world-city like Amsterdam. After all, it was a field trip to Amsterdam Roots Festival and part of a summer school on ethnography and storytelling at VU (Vrije Universeit Amsterdam). The festival is an annual traditional local event about diversity and grassroots with several stalls, presentations, and workshops of multiple forms of artistic expression and craftwork, from music, dance, circus, and storytelling to food. I presumed the festival’s bazaar would be particularly colourful and exciting, giving me the chance to observe, interact, and take photos from people selling handcrafts and ethnic food, while also tasting it, in a multidimensional and multicultural foodscape – which is basically the landscape of the political, economic, historical, social, and cultural context in which practices and values related to food and eating are somehow established and occur in a given space and time [1]. Anyway, it was a beautiful sunny day perfect to go to a park and enjoy it with friends, to listen to different music styles and to taste foods from different cuisines – not to mention, a great opportunity to put into practice what we had been learning in our anthropology course. All that in an event with a distinctive neighbourhood-like flair, possible only in cities like Amsterdam, yet away from the hordes of tourists and foreign kids “smoking their brains off” in the coffee shops in the central part of the city – I am not being judgemental, do not take me wrong, I usually pay a visit to De Tweede Kamer for old times’ sake whenever I am in Amsterdam. That day, our starting point was Amstelstation, by “the piano” as Younes, our course co-ordinator, had instructed us, as simple as that. Younes alone is a unique character. He is a well-known Iranian anthropologist, a bit mysterious given is life history, obviously, who did war zone ethnography, more precisely among the Daesh in Syria, using storytelling and visual elements to counterbalance the hardness of traditional academic writing. There stood the piano, honourably right in the middle of a major train and tube station, taken by a young fellow. Despite some temptation, I did not dare to touch it. Despite coming from a musical family, which makes music very central to my existence, I play no instruments. I sat at it just to register the beginning of our mission-adventure. On the other hand, Vittoria, a multicultural and talented Aussie, was the one who honoured us with a few beautiful tunes. That done, are we all right? Are we all here? So, off we go! With the help of Google Maps, we set off on our exploration. On the way, my pace had eventually accelerated by the excitement of the journey I had just embarked on – what the heck, I cannot deny my “Brazilianess”, we are full of emotion, yes, sometimes too much. Some minutes later, we came by a lost poster of the festival stuck on a wall near Amsterdam’s Oosterpark, our final destination. We were near... I felt compelled to register it, perhaps in the hope of marking my “ethnographic footsteps”. What? Oh, yes, you may say that it is practically impossible to get lost with Google Maps, but I had managed it the day before – after one of those visits to De Tweede Kamer, of course. After confirming that we were in the right direction, we made more headway for a few blocks and “voilà”! There we were: the Oosterpark, entering the festival’s grounds in a single file as if we were true explorers delving into an unknown Jules-Verne-like adventure to the centre of the Earth. As we did it, we saw the first lines of stalls being set to sell food and handcraft. But..., yes, I know..., sure it seemed rather empty and too quiet early in the morning, nonetheless, the first-hours fresh air cutting through the park’s trees’ shades made me relax... Still, the presence of locals taking their Sunday stroll with their dogs announced and reinforced the park’s neighbourhood atmosphere and the Festival’s grassroot character, which I suspected could collaborate to some authenticity of the experience, despite all globalization involved in it. Such peacefulness was also a perfect setting for Henry to explore his ethnographer vein as he waked by the stalls and calmly talked to the people setting the stands. Inspired by him, I turned to my ethnographic mission, trying to mimic his style when interacting with my “observees” [2] to obtain the so-often-sought empirical material as spontaneous as possible and essential to any ethnographer. I started to toil, working on spoken and visual gems (such as a Dutch-Creole "wurst") in search for data, taking my notes and photos and continuously seeking spontaneous conversations. As an experienced chef, seasoned traveller and a not-so rookie researcher, I felt the bazaar could give me plenty of material about Amsterdam's foodscapes. Of course, I kept in mind that my research's "patrons" (the stalls' people) had to improvise to cater for a large avid crowd and, so, my expectations about the quality or authenticity of their cuisines should be duly adjusted. Sure, this did not impair the cultural diversity of the material available. On the contrary, adjustments may result from negotiations among various multicultural identities in postcolonial settings, without compromising the richness of their cultural roots [3]. Indeed, at a Surinamese food stall, we tasted a delicious and refreshing non-alcoholic ginger beer. As the ginger touched my palate, a sparkling-like sensation reached every corner of my mouth, reminding me of the traditional Chinese hot-and-cold duality and of how West and East have met since the Columbian Exchange. Brave new world? Dutch, Creole, Chinese, Surinamese, such an array of postcolonial flavours, aromas, colours and diverse impressions... Venezuelan flavours... Türkiye's (instead of Turkey to respect a legitimate wish) ever-present falafel and kebabs... Indian, Indonesian (it seems Dutch buccaneers and traders have been everywhere indeed)... The ever-delicious and equally always-present Japanese cuisine – which, depending on your perspective, unfortunately, due to the sushi craze and its attached fishing industry, may have been helping to decimate the tuna population from the seas [4]... Even local creative interpretations of Southern US cuisine (Florida menu?) confirming how a culinary identity can be adapted when inserted in a new foodscape...... And surprisingly, there were even some stalls offering Dutch food and delicacies, reminding that local traditions may live together with new influences... Last, given the event's general tone, neither should I forget to mention Amnesty International’s smiling team. It becomes difficult these days to separate diversity in Europe from issues related to human rights, refugees, and the degree and quality of human beings’ capacity to live together in truly diverse societies. So, they were there, collecting data and spreading their always important message. Food and eating are central to our survival [5], but they also shape a socially and historically constructed cultural phenomenon [6]. Therefore, food, eating and the foodscape notion share a multidisciplinary nature [7 and 8]. Madame Coco, born in the Netherlands from Moroccan parents and speaking five languages; Jair, a Dutch born from Ghana parents, named after a Brazilian footballer, and starting his online company of organic skincare products…; Foto 22 ... the Senegalese looking after the stall selling colourful straw bags…; Foto 23 ... the Ecuadorian lady selling the always colourful Andean woollen work; and Mexico’s stand displaying the eternal Frida Kahlo may all help see the greater and complex context of Amsterdam’s multidisciplinary foodscapes. Foto 24 Yet, as I progressed along the lines of stalls, so varied colours, nice food smells and sounds had a “déjà vu” effect on me. So many impressions kept pressing me back to my own life story – as to a Mapusa’s market, in Goa, in India, in the distant year of 1990, when an immense array of impressions from strong colours, people’s hubbub, different sounds and music, and multiple scents from foods and spices got me literally buzzed. Foto 25, 26, 27 e 28 Then and at the Oosterpark, the cooking of so diverse cuisines, spices and the smoke from charcoaled chicken; the voices in so many different languages from the increasing number of visitors; and the mixed sounds from the first accords of the bands on the stages in the park’s central lawn... It all dazzled me and made it difficult to see how to carry on with my ethnographic mission. I did not know what to do, how to continue… Foto 29 Impressions, too many impressions, which, all of a sudden, kept transporting me not only to India, but to Serrita, in the heart of Brazil’s Northeast, in 1981, to another festival, that time a religious one for local cowboys, but also with the same array of multiple impressions from colours, sounds, smells and tastes. Foto 30 Then, as many times before, I wondered whether ethnography can teach us more about the other or about ourselves. Indeed, by the time I reached the last stall, my head was in total confusion, between the present and past experience. Foto 31

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